O meu “Cão Negro”

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As vezes perdemos amigos, parentes e colegas por não nos entender. O que parece bobo, fútil e blasé para algumas pessoas pode ser o fim para outras.

Não é simples dizer sobre o que sentimos, o que pensamos ou mesmo o que queremos. Palavras não resumem o sentimento ingrato e ao mesmo tempo “prazeroso” da depressão.

Prazeroso pois quem tem que se conformar e se manter distante de tudo para se sentir melhor é fácil. Freud e Lacan já discutiram sobre o prazer e o gozo. E quem é depressivo crônico sabe bem o que isso significa. Não é euforia, nem alegria, muito menos felicidade, é apenas uma fuga no qual sabotamos a nossa própria vida.

“Na psicanálise de Sigmund Freud, o princípio de prazer é o desejo de gratificação imediata. Tal desejo conduz o indivíduo a buscar o prazer e evitar a dor. O princípio de prazer opõe-se ao princípio de realidade, o qual caracteriza-se pelo adiamento da gratificação. Faz parte do amadurecimento normal do indivíduo aprender a suportar a dor e adiar a gratificação. Ao fazer isso, o indivíduo passa a reger-se menos pelo princípio de prazer e mais pelo princípio de realidade.”

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MATTHEW JOHNSTONE, uma pessoa comum que teve depressão escreveu seu estado em um livro muito legal e lúdico chamado “EU TINHA UM CÃO NEGRO. Seu nome era depressão”. O legal do livro é que ele não é médico nem especialista, simplesmente uma pessoa que ficou doente. Fizeram até um vídeo com as páginas do livro para quem não tem acesso ao material.

Desde que Winston Churchill descreveu os infernais períodos de depressão por que passou como um Cão Negro, essa expressão se popularizou como sinônimo da doença que afeta milhões de pessoas no mundo todo. ‘Eu tinha um Cão Negro – seu nome era Depressão’ apresenta uma visão realista mas animadora de como é viver com um companheiro baixo-astral que não larga do seu pé e parece querer enterrar sua vida. O Cão Negro pode ser um monstro terrível, mas tirá-lo da penumbra é o primeiro passo na direção da recuperação. Para domar essa fera, é preciso procurar ajuda médica, buscar forças dentro de si mesmo e o apoio da família e dos amigos.

Muitas vezes a dor é incontrolável, e é preciso despistar o cérebro com outros sentimentos vindo de vários outros sentidos como fome, dor física e o mais em conta, o frio. Truques como tomar banho gelado e sair sem se enxugar
gera uma pausa na dor crônica que sentimos na alma dando lugar ao frio, assim, o pouco tempo que existe até o corpo aquecer novamente podemos descansar do choro e da angústia eterna da depressão.

“A tendência dominante da vida mental e, talvez, da vida nervosa em geral, é o esforço para reduzir, para manter constante ou para remover a tensão interna devida aos estímulos (o ‘Princípio de Nirvana’)”

Os dias são difíceis. Cada dia é um dia. A luta tem que ser diária, pois não temos opção a não ser fazer parte do mundo. Dramas pessoais e individuais que acompanha cada depressivo é escondido por ele mesmo, como ir ao banheiro para chorar sem motivo, e voltar como se estivesse tudo normal, sorrir quando não há o mínimo de vontade para não ser grosseiro e ser aceito nas turmas de colegas entre milhares de comportamento insano que temos.

Vi um vídeo na internet que resume muito do que sentimos diariamente e que ninguém percebe.

A Dama da Noite

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Quando se ultrapassa o vazio negro,
frio como a beira de um abismo,
não volta como antes.

Não pedimos para nascer. Muito menos para viver. Há quem diga que somos o reflexo de antigas vidas e pensamentos desconexos do interior de nós mesmos. Quando se abrem os olhos e enxerga o que não se espera, dói como um abandono da alma.

O caminho percorrido até certo momento tem seus mistérios e segredos. É uma estrada longa e dura, ainda mais quando se tem vinte e poucos anos. Depois a vida não é tão simples, nem assim tão importante como se pensa. Quando se ultrapassa o vazio negro, frio como a beira de um abismo, não volta como antes.

O branco opaco dos olhos, o choro em meio a lágrimas se desfaz em minutos. Tudo acaba neste pequeno instante que se vê o incerto.

E foi assim, aos pés da “Dama da Noite”,
que eu morri pela primeira vez.

Eram 3 horas da madrugada quando ouvi meu nome durante o sonho. Bem ao fundo, rouco e distante. Abri os olhos e levei alguns segundos para me recompor. Era ele me chamando. Meu pai.

Assustado pulei da cama e corri para seu quarto. Sozinho, ele estava assustado com olhos distantes. Não conseguia falar pois a dor em seu peito não deixava. Poucos minutos foram suficientes para eu ouvir e não ter o que falar, apenas acalma-lo para sua partida.

A “Dama” chegou silenciosa e vagarosamente. Se virou e não havia rosto. Não havia nada. Ficamos imóveis vendo sugar sua alma, sua esperança e virtude. Um tempo eterno que levou apenas 10 minutos e toda crença que tínhamos.

Agora, o escuro me persegue. Fecho os olhos e, como numa fotografia em movimento, vejo seus olhos revirando, sua boca espumando e seu corpo tremendo como se pedisse ajuda.

Assim, os dias se tornaram mais longos, pois a noite não tem fim. Nunca.

Hoje, vinte e um de agosto, mais de uma década depois, meu pai estaria com 67.

Ficamos imóveis vendo sugar sua alma,
sua esperança e virtude.

Gole da Morte

Resolvi gravar esse pequeno e simples vídeo só para mostrar o processo de impressão de uma xilogravura. A prensa é para Scrapbook, mas pode ser improvisada para este fim. A minha é da marca Sizzix, mas tem vários outros modos de se imprimir uma gravura. Depois mostro as outras técnicas.