A Dama da Noite

mundeco

Quando se ultrapassa o vazio negro,
frio como a beira de um abismo,
não volta como antes.

Não pedimos para nascer. Muito menos para viver. Há quem diga que somos o reflexo de antigas vidas e pensamentos desconexos do interior de nós mesmos. Quando se abrem os olhos e enxerga o que não se espera, dói como um abandono da alma.

O caminho percorrido até certo momento tem seus mistérios e segredos. É uma estrada longa e dura, ainda mais quando se tem vinte e poucos anos. Depois a vida não é tão simples, nem assim tão importante como se pensa. Quando se ultrapassa o vazio negro, frio como a beira de um abismo, não volta como antes.

O branco opaco dos olhos, o choro em meio a lágrimas se desfaz em minutos. Tudo acaba neste pequeno instante que se vê o incerto.

E foi assim, aos pés da “Dama da Noite”,
que eu morri pela primeira vez.

Eram 3 horas da madrugada quando ouvi meu nome durante o sonho. Bem ao fundo, rouco e distante. Abri os olhos e levei alguns segundos para me recompor. Era ele me chamando. Meu pai.

Assustado pulei da cama e corri para seu quarto. Sozinho, ele estava assustado com olhos distantes. Não conseguia falar pois a dor em seu peito não deixava. Poucos minutos foram suficientes para eu ouvir e não ter o que falar, apenas acalma-lo para sua partida.

A “Dama” chegou silenciosa e vagarosamente. Se virou e não havia rosto. Não havia nada. Ficamos imóveis vendo sugar sua alma, sua esperança e virtude. Um tempo eterno que levou apenas 10 minutos e toda crença que tínhamos.

Agora, o escuro me persegue. Fecho os olhos e, como numa fotografia em movimento, vejo seus olhos revirando, sua boca espumando e seu corpo tremendo como se pedisse ajuda.

Assim, os dias se tornaram mais longos, pois a noite não tem fim. Nunca.

Hoje, vinte e um de agosto, mais de uma década depois, meu pai estaria com 67.

Ficamos imóveis vendo sugar sua alma,
sua esperança e virtude.